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Tratamento adjuvante dos tumores de colo uterino: eficácia da radioterapia isolada comparada com radioquimioterapia sequencial ou concomitante

O câncer de colo uterino tem alta taxa de incidência no mundo. No Brasil é o terceiro mais incidente e corresponde a aproximadamente 8% de todos os tumores que acometem as mulheres (INCA 2020). Em 2019, foi responsável por aproximadamente 6.600 óbitos. A doença avançada é comumente tratada com associação de diferentes modalidades, incluindo a radioterapia externa (RTE), a braquiterapia (BQT) e a quimioterapia (QT). Conhecidamente, para essas pacientes, a adição de QT (baseada em platina) à RT se traduz em aumento do tempo de sobrevida.

As pacientes com doença de estádio inicial são preferencialmente submetidas a cirurgia radical, por via aberta ou laparoscópica, com amostragem de linfonodos pélvicos ou linfadenectomia pélvica. A avaliação dos achados patológicos na peça cirúrgica define caracteres considerados como fatores de risco para recorrência de tumor, localmente e à distância. São comumente separados em fatores de alto risco e médio risco. Os fatores classificados como de alto risco são: margens cirúrgicas comprometidas por neoplasia, invasão parametrial ou metástases em linfonodos ressecados. Fatores de risco médio são: invasão estromal profunda e invasão do espaço vásculo-linfático. Assim, as pacientes operadas devem ser avaliadas quanto à pertinência de tratamento adjuvante. Um regime adjuvante ideal não é bem conhecido e há necessidade de se definir um tratamento risco-adaptado. Poucos estudos investigaram diferentes regimes para essa sub-população.

Um estudo recentemente publicado num jornal oncológico de alto impacto (JAMA Oncology) comparou 3 regimes adjuvantes nesta sub-população de pacientes. O estudo STARS é um ensaio clínico randomizado de fase 3 que contemplou as melhores práticas de pesquisa clínica e que incluiu 1048 participantes de 8 instituições chinesas com diagnóstico de câncer de colo uterino de estádio inicial (FIGO IB1-IIA2) e que foram submetidas a cirurgia radical. Grupos com pacientes recebendo RTE exclusiva, RTE/QT concomitantemente e RTE/QT sequencialmente foram formados e comparados após seguimento mediano de 56 meses. O desfecho primário de interesse foi definido como o tempo desde a separação das pacientes em grupos até a descoberta de doença recorrente. Houve preocupação com a distribuição equilibrada das participantes e de variáveis relevantes na proporção 1:1:1, com exceção de um menor número de pacientes com doença linfonodal no grupo tratado com RTE. Houve controle dos diferentes protocolos de tratamento de maneira a tornar os grupos comparáveis. Resumidamente, esse estudo demonstrou que houve uma maior quantidade de pacientes sem evidência de doença no grupo tratado com RTE/QT em regime sequencial, durante um período de 3 anos. Foi demonstrada uma diferença absoluta de 5% entre os grupos com participantes submetidas a tratamento sistêmico. Uma diferença absoluta de 8% foi demonstrada entre o grupo de participantes submetidas a RTE/QT sequencial e aquelas que receberam RTE exclusiva. Não houve diferença significativa entre o grupo que recebeu RTE/QT concomitante e o grupo que recebeu RTE exclusiva. O regime sequencial administrou 2 ciclos de combinação de cisplatina com paclitaxel; na sequência, realizaram a RTE (dose média 47.8Gy); após, receberam mais 2 ciclos de QT. Esse regime, ainda, foi associado com menor risco de morte câncer-específica. Esses benefícios se mostraram mais evidentes em pacientes que apresentaram fatores de alto risco. A terapia sequencial se mostrou menos tóxica, mais prática e mais adequada, na medida em que otimizou o tempo de administração após a cirurgia.

Os autores concluíram que esse regime tem um verdadeiro potencial para se tornar a escolha preferida, uma vez que, demonstrou melhores resultados oncológicos associados com menor grau de toxicidade e, principalmente, por diminuir o efeito deletério das limitações de acesso a serviços de RT, comumente observadas em países com escassez de recursos.

O artigo foi publicado em:
https://jamanetwork.com/journals/jamaoncology/article-abstract/2774871?utm_campaign=articlePDF&utm_medium=articlePDFlink&utm_source=articlePDF&utm_content=jamaoncol.2020.7168

Dr. Álerson Molotievschi
Médico Radio-oncologista Titular e Responsável Técnico
Departamento de Radioterapia do Hospital Regional de Câncer de Presidente Prudente – HRCPP

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