Apresentados na ESTRO 2026 e publicados recentemente na revista CA: A Cancer Journal for Clinicians, da American Cancer Society, os resultados de 20 anos de seguimento do estudo EORTC 22922/10925 demonstraram que a irradiação eletiva das cadeias nodais mamária interna e supraclavicular medial reduz a mortalidade por câncer de mama, mas não resulta em melhora da sobrevida global.
Estudo fase 3, prospectivo, randomizado e multicêntrico, recrutou 4.004 pacientes com neoplasia de mama estágios I-II com tumor primário central ou medial, ou em quadrante externo com envolvimento axilar. Os pacientes foram randomizados entre receber radioterapia adjuvante com ou sem irradiação eletiva das cadeias linfonodais mamária interna e supraclavicular medial (níveis III e IV) — denominada IM-MS-RT. A sobrevida global foi o endpoint primário, e a análise final obteve seguimento mediano de 22,2 anos, um dos maiores entre os estudos randomizados de câncer de mama até o momento.
Os resultados demonstraram sobrevida global semelhante entre os grupos com e sem IM-MS-RT (61% vs. 61,8%; p = 0,972). Entretanto, a mortalidade por câncer de mama foi significativamente menor no grupo IM-MS-RT (18,6% vs. 22,4%; p = 0,006), representando redução relativa de aproximadamente 20% na mortalidade câncer-específica. A taxa de mortalidade global foi de aproximadamente 38,7%, sendo 51,4% atribuída ao câncer de mama. Notavelmente, a partir dos 15 anos de seguimento, observou-se aumento progressivo das mortes por causas não relacionadas à neoplasia de mama (20,4% vs. 15,8%; p = 0,002), achado que pode explicar a similaridade de sobrevida global entre os grupos. As taxas de sobrevida livre de doença (48,2% vs. 49%; p = 0,515) e sobrevida livre de metástases (58,9% vs. 59,8%; p = 0,578) também foram similares entre os grupos. Em relação às toxicidades, eventos cardíacos e pulmonares foram mais frequentes no grupo IM-MS-RT; contudo, efeitos adversos graves foram incomuns e similares entre os grupos, com baixas taxas de morbidade graus 3-4 cardíaca (1,9% vs. 1,7%) e pulmonar (0,3% vs. 0%).
O estudo EORTC 22922/10925 representa contribuição robusta e bem inserida no contexto atual de discussão acerca de irradiação nodal eletiva adjuvante em câncer de mama. Contudo, sua interpretação deve considerar limitações inerentes ao longo período de seguimento: a prevenção, detecção e tratamento da neoplasia de mama evoluíram significativamente desde o recrutamento. Na prática moderna, o status HER-2, terapias-alvo, agentes imunoterápicos e terapia sistêmica neoadjuvante — ferramentas não contempladas na análise — poderiam modificar a importância da irradiação nodal eletiva no controle da doença. O progressivo refinamento da abordagem cirúrgica axilar representa fator adicional que interfere na relevância da irradiação nodal no controle locorregional. A evolução tecnológica da radioterapia — tridimensionalidade, IMRT, VMAT, imagem durante o tratamento e breath-hold — também recontextualiza esses achados, uma vez que a proteção de tecidos cardíacos e pulmonares é substancialmente superior à disponível à época do recrutamento. Nesse sentido, o aumento tardio de mortalidade por causas não relacionadas ao câncer de mama observado a partir de 15 anos de seguimento é provavelmente multifatorial: embora possível contribuição da morbidade do tratamento não possa ser descartada, o acúmulo de comorbidades e outros fatores ao longo de mais de duas décadas de sobrevida representa explicação plausível e igualmente relevante para esse achado.
A irradiação nodal eletiva permanece tema de extensa discussão no tratamento do câncer de mama na era moderna. O EORTC 22922/10925 contribui então evidenciando que a irradiação nodal eletiva promove efeitos duráveis na mortalidade câncer-específica e no controle locorregional, além de destacar a importância do seguimento prolongado na avaliação de resultados oncológicos, especialmente em pacientes com prognóstico favorável, a despeito das limitações que seguimentos longos inevitavelmente impõem.
A publicação completa está disponível no link: https://doi.org/10.3322/caac.70082.
Dra. Ana Júlia Vasconcellos Martins do Lago10
Residente 4° ano de radioterapia no Hospital de Amor de Barretos
Dr. Marcos Duarte de Mattos
Coordenador do Departamento de Radioterapia – Hospital de Amor de Barretos
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