O leiomiossarcoma (LMS) corresponde a aproximadamente 10–20% dos sarcomas de partes moles e constitui uma entidade clínica e molecularmente heterogênea, com predomínio em útero, retroperitônio e extremidades. A raridade e a diversidade de apresentações limitam a geração de evidência prospectiva específica e tornam particularmente relevante uma abordagem terapêutica sítio-específica.
Publicado no JAMA Oncology, este é o primeiro consenso internacional dedicado ao diagnóstico e manejo do LMS. O painel multidisciplinar revisou ensaios randomizados, estudos prospectivos e retrospectivos e diretrizes internacionais, atribuindo níveis de evidência e graus de recomendação. O consenso exigiu concordância unânime, e as áreas de incerteza foram explicitamente identificadas.
Para a radioterapia, a mensagem central é sítio e risco-específica. Nos LMS de extremidades e tronco, a RT deve ser considerada sobretudo em tumores ≥5 cm e de alto grau, com benefício em controle local, mas sem ganho demonstrado em sobrevida global. Quando indicada, a estratégia neoadjuvante é preferida pelo menor volume e dose total e menor toxicidade tardia, apesar do maior risco de complicações de ferida operatória. Em tumores de baixo risco grau 1, pequenos, superficiais e com margens amplamente negativas a RT pode ser omitida.
No LMS retroperitoneal ressecável, a cirurgia permanece o tratamento padrão e a RT pré-operatória não deve ser empregada rotineiramente, diante da ausência de benefício demonstrada no STRASS. A RT deve entrar na discussão principalmente na doença borderline ressecável ou irressecável não metastática, potencialmente integrada à terapia sistêmica com o objetivo de aumentar a ressecabilidade.
No LMS uterino, a cirurgia também é o tratamento central. Após ressecção completa, a RT adjuvante não é recomendada rotineiramente. Após ressecção R1/R2, a RT adjuvante pode ser considerada com o objetivo de otimizar o controle local. Na doença borderline ressecável, a RT neoadjuvante pode ser considerada dentro de uma estratégia multidisciplinar.
Na doença oligometastática ou oligoprogressiva, tratamentos locais, incluindo SBRT, podem ser considerados, particularmente em pacientes com baixo volume metastático, intervalo livre de doença prolongado e bom performance status. Entretanto, não existem critérios prospectivamente validados para seleção. O consenso também destaca dados emergentes de possível sinergia entre RT e trabectedina.
Em neoplasias raras, grandes ensaios específicos são difíceis de conduzir. Nesse contexto, consensos internacionais como este têm papel relevante ao sistematizar evidências fragmentadas em recomendações clinicamente aplicáveis, explicitar suas limitações e definir as principais lacunas para investigação futura.
O artigo pode ser acessado no link – JAMA Oncol. doi:10.1001/jamaoncol.2026.3366
Dra. Denise Ferreira Silva Alves
Diretora de Comunicação e Marketing SBRT- Gestão 2025-2027
Médica radio-oncologista do Hospital Moinhos de Ventos e Vitta/OC Centro de Radioterapia/RS
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