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Ultra Hipofracionamento em câncer de Mama

O ano de 2020 foi marcado pela publicação de alguns importantes estudos para a Radioterapia. O estudo inglês FAST-Forward, publicado na Lancet em maio deste ano, é sem dúvida uma destas publicações. Em meio à pandemia de COVID-19, em que mais do que nunca é necessário “encurtar” o tempo de tratamento, a alternativa do ultra hipofracionamento para pacientes com câncer de mama merece destaque.

Trata-se de um estudo de não inferioridade, multicêntrico, randomizado, fase III, realizado no Reino Unido, que analisou 4096 pacientes com câncer de mama estadios pT1-pT3, pN0-pN1, submetidas a cirurgia conservadora ou mastectomia. Estas pacientes foram randomizadas para três esquemas de Radioterapia: 40Gy em 15 frações (Grupo controle = hipofracionamento stantard), 26Gy em 5 frações e 27 Gy em 5 frações, em dias consecutivos (ultra hipofracionamentos testados). A radioterapia em drenagens não era permitida.

O endpoint primário do estudo foi recidiva na mama ipsilateral e os efeitos em tecidos sadios foram acessados pelos médicos e pacientes, além do uso de registro fotográfico.

Com seguimento mediano de 71,5 meses, ambos os esquemas de ultra hipofracionamento foram não inferiores a 40Gy em 15 frações (incidência cumulativa de recidiva local em 5 anos de 1,7% [95% IC 1,2-2,6] para 27Gy, 1,4% [0,9-2,2] para 26Gy e 2,1% [1,4-3,1] para o grupo que fez 40Gy). A incidência de alterações moderadas ou severas em tecidos normais da mama ou parede torácica em 5 anos foi de 15,4% para o grupo de 27Gy, 11,9% para 26Gy e 9,9% para o grupo controle (40Gy), com diferença significativa entre 40Gy e 27 Gy (p<0,0001), mas sem diferenças entre 40Gy e 26Gy (p=0,20).

Na conclusão do artigo, os autores sugerem que 26Gy em 5 frações deve tornar-se o novo esquema padrão para pacientes com indicação de Radioterapia adjuvante na mama ou parede torácica.

De fato, este esquema vem ganhando força no contexto da pandemia de COVID-19, por sua rapidez, praticidade e menor exposição das pacientes aos serviços de saúde, tendo sido validado em guidelines internacionais para o tratamento de câncer de mama durante a pandemia.

No entanto, é preciso cautela ao considerar o ultra hipofracionamento como tratamento padrão, já que é necessário um seguimento maior para avaliar as recidivas tardias e as potenciais complicações da Radioterapia a longo prazo. Além disso, 24,7% das pacientes no estudo fizeram boost no leito cirúrgico, com mais 05 ou 08 frações (o que dobra o tempo total de tratamento), diminuindo assim as vantagens do ultra hipofracionamento para pacientes com indicação de boost.

O ultra hipofracionamento surge então como uma interessante alternativa para diminuição do tempo e do custo da Radioterapia de mama, mas o amadurecimento desses dados, com um seguimento mais longo, será fundamental para torná-lo o esquema padrão.

Confira o artigo completo em https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30932-6/fulltext.

 

Dra. Izabela Lourenço S. Fernandes
Radioterapeuta do COT-Oncoclinicas Uberlândia

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