Preservação de órgão nos pacientes com adenocarcinoma retal tratado com Terapia Neoadjuvante Total

arte 23 de maio 1A abordagem do câncer retal tem sido modificada substancialmente nos últimos anos. Entre estes avanços, destacam-se a consolidação da rádio (RT) e quimioterapia (QT) neoadjuvantes nos casos de tumores localmente avançados, e a utilização de tratamentos hipofracionados. Não obstante, a possibilidade de preservação de órgão em tumores que respondem bem à neoadjuvância (watch and wait, WW), está sendo cada vez entendida mais apropriadamente.

Garcia-Aguilar e colaboradores recentemente publicaram importante estudo sobre o tema no Journal of Clinical Oncology (doi/abs/10.1200/JCO.22.00032), com 324 pacientes com tumores de reto Estádio Clínico II (T3-4N0) e III (TxN1-2)  randomizados nos seguintes grupos:

Grupo A (indução), 158 pacientes, QT de indução com 5-fluouracil, leucovorin e oxaliplatina (FOLFOX) ou capecitabina e oxaliplatina (CAPEOX) seguido de RT com 45 Gy em pelve (incluindo linfonodos inguinais) com boost concomitante ou sequencial com dose total de 50-56 Gy. Concomitantemente, a QT era realizada com 5-fluoracil ou capecitabina.

Grupo B (consolidação), 166 pacientes, realizava o mesmo esquema de RT e QT, porém em ordem invertida, ou seja a QT isolada era realizada após o tratamento concomitante.

Ambos os grupos realizaram avaliação da resposta 8 semanas após o tratamento neoadjuvante (± semanas) com exame clínico, endoscópico e radiológico. Em caso de não haver resposta completa, o paciente era submetido à cirurgia. Quando a resposta clínica completa era identificada (independente do grupo), a abordagem com WW era oferecida com exame clínico, retossigmoidoscopia e ressonância nuclear magnética a cada 4-6 meses (ou quando clinicamente necessário). Biópsias aleatórias não eram realizadas. O desfecho primário foi sobrevida livre de doença (SLD).

Os grupos A e B apresentaram características de base  semelhantes e a tolerância ao tratamento neoadjuvante foi similar. Com um seguimento mediano de 3 anos entre os pacientes vivos, foi identificada SLD semelhante nos 2 grupos (76%). Adicionalmente, a incidência de metástases à distância e recidiva local foi igualmente similar.

A única variável relacionada à SLD foi a presença de linfonodo comprometido no estadiamento inicial. Dos 304 pacientes que foram avaliados em relação à resposta à neoadjuvância, 225 (71% e 76% dos pacientes dos grupos A e B, respectivamente) apresentaram resposta completa e a abordagem WW foi oferecida. No seguimento, 42/105 (40%) e 33/120 (27%) desenvolveram recidiva local nos grupos A e B, respectivamente, com o resgate cirúrgico sendo indicado.

Na análise considerando a  intenção de tratamento, 53% dos pacientes do grupo B (consolidação) estavam com o reto preservado após 3 anos em comparação com 41% dos casos no grupo A (indução) p = 0,01. Os fatores preditores na análise multivariada em relação à sobrevida com preservação do reto em 3 anos foram: estadiamento clínico T3, N+ ou uso de quimioterapia de indução. Adicionalmente, entre os 154 pacientes que apresentaram resposta incompleta ao tratamento neoadjuvante (79 pacientes não respondedores na avaliação de resposta e 75 no seguimento do grupo WW), 133 foram submetidos à cirurgia e apresentaram sobrevida similar entre si.

Os achados deste importante estudo vem ao encontro dos principais estudos avaliando a abordagem de acompanhamento ativo dos pacientes que apresentarem resposta clínica completa após o tratamento neoadjuvante, realizando-se a cirurgia em caso de recidiva local do tumor. Adicionalmente, similar aos achados do estudo CAO/ARO/AIO-12, o uso de quimioterapia de consolidação parece ser superior em relação à indução.

Por fim, a despeito de curto seguimento (mediana de 3 anos), este estudo corrobora e a utilização da abordagem inicialmente proposta por Angelita Habr-Gama no sentido de proporcionar mais dados robustos em relação à eficiência e segurança do tratamento conservador nos pacientes que apresentam câncer de reto localmente avançado e resposta clínica completa ao tratamento neoadjuvante.

 

Maurício Fraga da Silva, MD, PhD
Email: mauricio.f.silva@ufsm.br
Médico Radio-oncologista do Hospital Universitário de Santa Maria e Clínica de Radioterapia de Santa Maria

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