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O GLOBO – Luciana Holtz publica matéria sobre situação do câncer no Brasil

Não vamos morrer na praia

País sofre com a inexistência de infraestrutura para cuidar do câncer: faltam hospitais, centros cirúrgicos, máquinas de radioterapia

Luciana Holtz
Publicado:28/11/13 – 0h00

A conhecida expressão do nadador que luta contra as ondas do mar para chegar à praia e acaba morrendo justamente quando alcança seu objetivo ilustra a situação do combate ao câncer no Brasil. Nos últimos anos, o crescente conhecimento sobre essa grande família de doenças chamada “câncer”, que ataca ricos e pobres, jovens e adultos, e cuja ocorrência no Brasil é de cerca de 576 mil novos casos ao ano, permitiu aos pesquisadores identificar caminhos realmente inovadores para o tratamento.

Os avanços decorrem principalmente da melhor caracterização dos tipos de câncer e da identificação de alvos nas células malignas que podem ser alvejados com novas medicações. As novas terapias-alvo tratam tumores de maneira mais eficaz e o aperfeiçoamento da imunoterapia trouxe medicamentos biológicos que “ensinam” nossas defesas a combaterem a doença, ampliando significativamente a vida de pacientes que convivem com metástases.

Atualmente, contamos com conhecimento e tecnologia de ponta, mas que infelizmente ainda não estão disponíveis à maioria dos pacientes. O Instituto Oncoguia, uma associação sem fins lucrativos, criada e idealizada para ajudar o paciente com câncer a viver melhor, vê com imensa preocupação esta dificuldade de aproximar do paciente os imensos avanços que muitas vezes poderiam salvar suas vidas.

A Conitec (comissão criada pelo governo para avaliar os tratamentos oferecidos no SUS) tem ouvido a sociedade para decidir com critérios de relação custo-benefício sobre o que será disponibilizado no SUS para prevenção e tratamento contra o câncer. Mas também é uma decepção a negativa da comissão a oferecer no SUS tratamentos já mundialmente aceitos.

Embora a saúde seja um direito constitucional, o brasileiro que hoje recorrer ao SUS ou a um plano de saúde enfrentará sérias dificuldades para ter acesso a médicos e exames que agilizem e garantam o diagnóstico correto e precoce. O país sofre com a inexistência de infraestrutura para cuidar do câncer: faltam hospitais, centros cirúrgicos, máquinas de radioterapia e, principalmente, profissionais de saúde bem treinados. Discutir falta de infraestrutura é discutir o financiamento da saúde, e abster-se desta discussão deixa um vácuo que tira a possibilidade de cura e tratamento digno de inúmeros pacientes.

O Instituto Oncoguia e outras organizações têm aliados importantes como a senadora Ana Amelia Lemos (PP-RS), responsável pela aprovação da lei 12.880, que obriga os planos de saúde a cobrirem medicamentos orais contra o câncer, e a recém-lançada Frente Parlamentar de Combate ao Câncer, criada pelo deputado federal Ruy Carneiro (PSDB-PB) com o intuito de ampliar o debate, propor soluções e atualizar a legislação.

Não podemos mais conviver com um cenário no qual o paciente não seja colocado no centro, acima de interesses políticos e acima de preconceitos. Temos muitas armas e muita esperança para enfrentar o câncer. E nessa guerra, não vamos morrer na praia.

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