O estudo avaliou se o estriol vaginal tópico poderia favorecer a recuperação vaginal e melhorar a qualidade de vida e a função sexual após radioterapia para câncer do colo do útero. O estriol não melhorou significativamente a maturação epitelial, atrofia, dor ao exame ou qualidade de vida em comparação ao placebo, embora tenha sido observado um possível sinal de benefício em alguns domínios da função sexual.
A toxicidade vaginal tardia é uma complicação relevante da radioterapia pélvica, podendo causar atrofia, fibrose, perda de elasticidade, estenose e dispareunia. Apesar do uso de estrogênio vaginal na prática clínica, as evidências permaneciam limitadas e baseadas principalmente em estudos pequenos e antigos.
Trata-se de ensaio clínico piloto, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Foram incluídas 60 mulheres, de 18 a 55 anos, com câncer cervical FIGO I–IIIC2, tratadas com radioterapia externa e braquiterapia, com ou sem quimioterapia. As pacientes foram randomizadas 1:1 para estriol vaginal 0,5 mg ou placebo por 6 meses. Todas receberam orientação para uso de dilatadores, e terapia hormonal sistêmica foi permitida quando indicada.
O desfecho primário foi maturação histológica do epitélio vaginal aos 6 meses. Os secundários incluíram atrofia, dor ao exame, qualidade de vida (EORTC QLQ-C30/CX24) e função sexual (FSFI). Houve importante recuperação epitelial em ambos os grupos, sem diferença: epitélio trófico em 82,6% com estriol versus 81,5% com placebo (p=1,000). Também não houve diferença significativa em atrofia, dor ou qualidade de vida.
Na função sexual, houve maior melhora absoluta em lubrificação, orgasmo e escore total do FSFI com estriol, mas sem superioridade estatística entre os grupos. Aos 6 meses, função sexual normal ocorreu em 25,9% versus 18,5% (p=0,745).
Entre os pontos fortes estão o desenho randomizado, duplo-cego e placebo-controlado e a associação de avaliação histológica com desfechos relatados pelas pacientes. As principais limitações são o pequeno tamanho amostral, seguimento de 6 meses e uso frequente de dilatadores e terapia hormonal sistêmica.
Na prática, o estudo não sustenta o uso rotineiro de estriol para melhorar a recuperação histológica após radioterapia, mas mantém a hipótese de benefício sobre aspectos da função sexual. Os achados reforçam que a reabilitação vaginal pós-radioterapia é multifatorial e deve integrar medidas de suporte e abordagem sistemática da saúde sexual.
Artigo na íntegra: https://doi.org/10.1016/j.ijgc.2026.104831
Dra. Ana Luiza Fassizoli da Fonte
Médica radio-oncologista
Serviço de Radioterapia do IMIP
Hospital de Câncer de Pernambuco
Memorial Star-Rede D’Or
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