Impacto da terapia direcionada a metástases no câncer de próstata oligometastático: metanálise wolverine

O manejo do câncer de próstata oligometastático — definido pela presença de até cinco metástases ósseas — tem evoluído com o reconhecimento desse estado como uma fase intermediária da progressão tumoral. Nessa situação, a carga tumoral ainda é relativamente limitada, o que abre espaço para intervenções locais com potencial de modificar a história natural da doença.

A Terapia Direcionada a Metástases (metastasis-directed therapy, MDT), realizada principalmente por radioterapia estereotáxica corporal (SBRT), ganhou relevância nesse cenário. Entretanto, por muitos anos sua utilização foi sustentada principalmente por estudos de fase 2, que sugeriam benefício em desfechos como resposta de PSA e sobrevida livre de progressão, mas apresentavam limitações metodológicas e tamanho amostral reduzido.

A metanálise WOLVERINE representa um avanço importante nesse contexto. Diferentemente das metanálises tradicionais, baseadas em dados agregados, o estudo utilizou uma abordagem com dados individuais de pacientes (Individual Patient Data – IPD), considerada uma das formas mais robustas de síntese de evidências. Essa metodologia permite maior precisão nas análises, harmonização de desfechos entre estudos e avaliação mais consistente de subgrupos clínicos.

A colaboração X-MET realizou uma revisão sistemática que identificou 2.975 estudos, dos quais sete ensaios clínicos randomizados de fase 2 foram incluídos após avaliação rigorosa do risco de viés. No total, foram analisados dados de 574 pacientes. Para a análise principal, que comparou MDT associada ao tratamento padrão (standard of care, SOC), foram utilizados 472 pacientes provenientes de seis estudos: STOMP, ORIOLE, EXTEND, ARTO e o subgrupo de câncer de próstata do SABR-COMET. O estudo RADIOSA também contribuiu para análises adicionais relacionadas a fatores prognósticos e estratégias terapêuticas combinadas.

Os resultados demonstraram benefício consistente da MDT. Houve redução significativa no risco de progressão ou morte, com hazard ratio (HR) de 0,44 (IC 95% 0,35–0,56; p<0,0001), correspondente a uma redução de cerca de 56% no risco de eventos. Também foi observada melhora na sobrevida livre de progressão radiográfica, com HR de 0,60 (IC 95% 0,42–0,85; p=0,0039), além de atraso no desenvolvimento de resistência à castração, com HR de 0,58 (IC 95% 0,37–0,92; p=0,019).

Embora a análise de sobrevida global não tenha atingido significância estatística convencional (HR 0,63; IC 95% 0,39–1,00; p=0,051), observou-se tendência consistente de benefício, com hazard ratio favorável à MDT em todos os estudos incluídos. O perfil de segurança foi semelhante entre os grupos, com eventos adversos grau 2 ou superior ocorrendo em 17% dos pacientes tratados com MDT associada ao tratamento padrão e em 15% daqueles tratados apenas com SOC, sem eventos grau 5 relacionados ao tratamento.

Análises exploratórias sugeriram maior benefício em pacientes com níveis basais de PSA mais baixos, possivelmente refletindo menor carga de doença micrometastática. Dados do estudo RADIOSA também indicaram que a adição de seis meses de terapia de privação androgênica (ADT) à MDT pode melhorar a sobrevida livre de progressão inicial, embora sem impacto claro em sobrevida global ou resistência à castração.

Em conjunto, a metanálise WOLVERINE fornece a evidência mais robusta até o momento de que a MDT pode atrasar a progressão da doença e o desenvolvimento de resistência à castração no câncer de próstata oligometastático, sem aumento da toxicidade em relação ao tratamento padrão (incidência de efeitos adversos de grau 2 ou superior foi 15% no grupo SOC versus 17% no grupo MDT + SOC). Enquanto estudos em andamento buscam confirmar impacto definitivo em sobrevida global e explorar a abordagem em pacientes com maior número de metástases, os dados atuais já reforçam o papel da SBRT como estratégia relevante no manejo desses pacientes.

Disponível em: <https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(25)00658-8/abstract>.

Dra. Geovanna Ribeiro
Residente de Radioterapia no Hospital da Baleia (Belo Horizonte/MG)

Dr. Marcos Regalin
Médico Radio-oncologista no Hospital da Baleia e no Hospital Mater Dei (Belo Horizonte/MG)

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