Trabalho espanhol conduzido pela Universidade de Navarra e publicado na revista Radiotherapy and Oncology em outubro de 2025, no qual os pesquisadores propõem avaliar a possibilidade de intensificar a dose de radiação na Recidiva Isolada do Leito Prostático (RILP), combinando braquiterapia de alta taxa de dose (BATD), seguida de radioterapia externa (EBRT) e terapia de bloqueio hormonal (ADT) concomitante de curta duração.
Sabe-se que a radioterapia externa de resgate combinada com ADT de curto prazo (6 meses) aumenta a sobrevida livre de progressão em 10 anos de 49% para 64% em comparação com radioterapia isolada, sendo o tratamento padrão para a maioria dos pacientes com recorrência bioquímica após prostatectomia radical.
O artigo lembra que, apesar das doses entregues no cenário da teleterapia (66 Gy em leito prostático, 50 Gy em áreas de vesículas seminais e 45–50 Gy em cadeias linfonodais eletivas) serem avaliadas como altas, até 80% das falhas ainda são locais. Ou seja, o problema muitas vezes é dose insuficiente no foco da recidiva.
O racional para o uso da BATD, além da possibilidade de escalonamento de dose, é a característica de oferecer gradientes de dose acentuados, o que permite escalonamento seletivo poupando estruturas críticas, como anastomose vesicouretral (VUan), esfíncter urinário externo (EUE), bexiga e reto.
Ainda observando o cenário atual, o trabalho se propõe a avaliar possibilidades de tratamento com maior precisão, dado que os avanços tecnológicos nos exames de imagem permitem identificar progressões ou recidivas isoladas mesmo em baixos níveis de PSA. A disponibilidade dos avanços de PET-CT PSMA e da ressonância multiparamétrica é fator crucial para a discussão do escalonamento de dose de maneira precisa e objetiva.
Trata-se de um estudo prospectivo de fase I–II (NCT06982469) de BATD combinada com EBRT e ADT de curto prazo, com o objetivo de superar a resistência à radiação por meio do escalonamento de dose em pacientes com RILP confirmados por PET/RM após prostatectomia radical.
O estudo foi realizado no período de 2020 a 2024 e incluiu 16 pacientes tratados de acordo com o protocolo (todos seguiram rigidamente as limitações de dose), sendo 12 pacientes de risco intermediário e 4 pacientes de alto risco. O PSA mediano à avaliação do resgate era de 0,36 ng/mL, e a média de idade foi de 67 anos.
A BATD foi realizada com uso de raquianestesia ou anestesia geral, com inserção de agulhas transperineais guiadas por ultrassom (USG) transretal com fusão RM/USG. A RM intraoperatória foi utilizada para verificação do implante e da dosimetria.
A dose de BATD foi de 19 Gy em 2 frações consecutivas, prescrita ao CTVD90, desde que todas as restrições aos órgãos em risco fossem respeitadas. A BATD precedeu a RT em todos os casos.
Os campos da RT foram divididos em 3 PTVs: 1) considerado como o mesmo CTV da BATD; 2) leito prostático e vesículas seminais, com dose de 42 Gy em 15 frações; 3) drenagens pélvicas eletivas, com dose de 40 Gy em 15 frações. As doses foram entregues com uso de VMAT ou IMRT, sendo obrigatório o uso de IGRT (CBCT). Os fiduciais implantados no momento da BATD foram utilizados para conferência de posicionamento.
Todos os pacientes avaliados receberam 6 meses de bloqueio hormonal. A terapia androgênica poderia ser iniciada antes, durante ou após a RT.
Os critérios de exclusão incluíram pacientes previamente submetidos à radioterapia em campos pélvicos, evidência de lesão com acometimento à distância, lesões multicêntricas ou endoluminais e expectativa de vida menor que 5 anos.
Os objetivos foram avaliar desfechos de segurança, qualidade de vida e controle bioquímico, com vigilância bioquímica e utilização do questionário QLQ-PR25 no basal e no período de 6 meses. O desfecho primário do estudo foi a sobrevida livre de recidiva bioquímica (bRFS) em 5 anos. Os desfechos secundários incluíram eventos adversos GU/GI (agudos e tardios), bem como variações de qualidade de vida.
As toxicidades foram avaliadas pelo uso do CTCAE v5.0, e a qualidade de vida pelo QLQ-PR25 no período de 6 meses após o tratamento. O PSA foi medido no momento da RT e a cada consulta de seguimento. Os objetivos secundários incluíram eventos adversos gastrointestinais, urológicos e alterações na qualidade de vida.
No seguimento mediano de 3,7 anos, não se observaram falhas locais, e estimou-se bRFS em 5 anos de 92% (15/15). A toxicidade tardia foi baixa (apenas 1 caso de toxicidade urinária tardia grau 2 e nenhuma toxicidade grau 3). O QLQ-PR25 permaneceu estável aos 6 meses.
Em resumo, o trabalho relata que BATD focal seguida de RT pode superar a subdosagem no volume macroscópico frequentemente observada na RT isolada, levando a um melhor controle bioquímico precoce.
Os autores destacam que a principal limitação do estudo está relacionada ao pequeno tamanho da amostra e ao encerramento precoce do trabalho devido à baixa taxa de inclusão. Ainda assim, apontam que, em casos de RILP adequadamente mapeados por PSMA/RM, a combinação de BATD e RT — realizada sob restrições rigorosas e com verificação por imagem de alta qualidade — configura uma estratégia promissora para a intensificação segura da dose, com potencial para influenciar a prática clínica em centros com expertise em braquiterapia.
O artigo pode ser acessado no link – DOI: 10.1016/j.radonc.2025.111215
Dr. Cauã Bhering Soares
Radio-oncologista – Instituto do Câncer do Estado de São Paulo – ICESP
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