Tratamentos adjuvantes pós-operatórios no câncer do colo do útero: evidências de uma metanálise em rede

 

O manejo adjuvante após cirurgia no câncer do colo do útero em estágios iniciais permanece um tema de debate, especialmente em pacientes com fatores de risco intermediário ou alto. Embora a quimiorradioterapia concomitante (CCRT) seja considerada padrão para casos de alto risco, diferentes estratégias adjuvantes vêm sendo exploradas com o objetivo de otimizar sobrevida e reduzir toxicidade. Neste contexto, Huang et al. publicaram a primeira network meta-analysis (NMA) comparando múltiplas abordagens adjuvantes no cenário pós-operatório.

O estudo incluiu 19 ensaios clínicos randomizados, totalizando 2.937 pacientes com câncer cervical estágios I a IIB submetidas à histerectomia. Foram comparadas cinco estratégias: radioterapia isolada (RT), quimioterapia isolada (QT), quimiorradioterapia concomitante (CCRT), quimiorradioterapia sequencial (SCRT) e CCRT seguida de quimioterapia de consolidação (CCRT + QT). A análise utilizou modelo bayesiano de efeitos aleatórios, com avaliação de sobrevida global (OS), sobrevida livre de doença (DFS), recorrência e eventos adversos, além de ranqueamento terapêutico pelo método SUCRA.

A estratégia CCRT + QT apresentou o melhor desempenho em sobrevida global (HR 0,46; IC95% 0,28–0,71), com alto nível de evidência e maior probabilidade de ser a opção mais eficaz (SUCRA 95%). Resultados semelhantes foram observados para DFS, com redução significativa quando comparada à RT isolada (HR 0,48). Em relação à recorrência, CCRT + QT também demonstrou a maior redução de risco relativo, seguida por CCRT e SCRT. Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os tratamentos quanto à recorrência à distância ou metástases.

Quanto à toxicidade, não houve diferenças significativas na incidência de mielossupressão, cistite, proctite ou náuseas/vômitos entre as estratégias. Entretanto, o ranqueamento SUCRA favoreceu a RT isolada como a opção com menor risco de eventos adversos.

Os autores concluem que a combinação CCRT + QT apresenta tendência consistente de maior benefício oncológico, especialmente em pacientes com características de alto risco, embora à custa de maior toxicidade hematológica. Limitações incluem heterogeneidade na definição de “alto risco” e ausência de dados individuais. Estudos futuros com estratificação mais refinada são necessários para personalizar a terapia adjuvante no câncer cervical precoce.

O artigo pode ser acessado no link – https://doi.org/10.1016/j.ijrobp.2025.07.1440

Dra. Anne Karina Kiister Leon
Hospital Santa Rita de Cássia – HSRC
Instituto Radioterapia Vitória – IRV
Núcleo especializado em Oncologia – NEON

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