O PORTEC-4a avaliou prospectivamente a incorporação do perfil molecular na definição da adjuvância no câncer de endométrio de risco intermediário-alto, substituindo critérios exclusivamente clinico patológicos por uma estratégia guiada por risco molecular. Trata-se de um ensaio fase III, randomizado, de não inferioridade, que comparou a braquiterapia vaginal padrão com uma abordagem individualizada após cirurgia.
No grupo tratado conforme perfil molecular, a estratificação integrou os subgrupos descritos pelo The Cancer Genome Atlas (TCGA) a fatores histopatológicos de alto risco. Pacientes com perfil favorável, com tumores POLE mutados ou NSMP CTNNB1 wild-type, foram apenas observadas. Pacientes com perfil intermediário, com tumores com deficiência de reparo de mismatch ou NSMP CTNNB1 mutado, receberam braquiterapia vaginal. Pacientes com perfil desfavorável, com tumores p53 anormal e ou presença de LVSI substancial ou superexpressão de L1CAM, foram tratadas com radioterapia pélvica externa.
Com seguimento mediano de 58,1 meses, a incidência cumulativa de recidiva vaginal em cinco anos, desfecho primário do estudo, foi de 4,5% no grupo guiado por perfil molecular e de 1,6% no grupo tratado com braquiterapia vaginal. A diferença absoluta foi de aproximadamente 3%, permanecendo abaixo da margem de não inferioridade de 7,0%. As recidivas pélvicas foram menos frequentes no grupo guiado por perfil molecular, 3,2% versus 5,2%, com menor recorrência locorregional nos subgrupos desfavoráveis quando tratados com radioterapia pélvica. As taxas de metástases à distância foram idênticas entre os grupos, 10,5%. A sobrevida global em cinco anos foi de 88,0% no grupo guiado por perfil molecular e 90,9% no grupo tratado com braquiterapia vaginal. Observou-se baixa toxicidade, com raros eventos adversos de grau 3 ou superior.
Do ponto de vista da radioterapia, o PORTEC-4a demonstra que a individualização da adjuvância baseada em perfil molecular é segura e eficaz em pacientes com câncer de endométrio de risco intermediário-alto. A estratégia reduz o excesso e o subtratamento ao omitir adjuvância em pacientes com perfil molecular favorável e reservar a radioterapia pélvica para aquelas com maior risco de recorrência locorregional, mantendo controle oncológico adequado.
O artigo pode ser acessado no link DOI: 10.1016/S1470-2045(25)00612-6
Dr. Cesar Caldas
Médico radioterapeuta
Oncoclinicas Betim / Hospital da Baleia
Membro titular SBRT
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