Desfechos de longo prazo na radioterapia hipofracionada pós-prostatectomia: relato de alerta ou achado esperado?

O editorial discute o estudo retrospectivo de Ranta et al., que avaliou desfechos de longo prazo após radioterapia hipofracionada no leito prostático pós-prostatectomia. Embora o hipofracionamento seja comprovadamente eficaz e seguro para câncer de próstata com glândula intacta, sua aplicação no contexto pós-cirúrgico ainda gera debate.

No estudo analisado, com seguimento mediano de 13,5 anos, cerca de 60% dos pacientes estavam livres de recorrência bioquímica em 10 anos, sem uso frequente de terapia hormonal ou irradiação pélvica. No entanto, 27% apresentaram morbidade grave tardia. Os autores destacam que o longo seguimento é essencial para compreender plenamente os riscos de regimes hipofracionados com dose elevada.

Os editorialistas, Shen, Chen e Buyyounouski, ponderam cinco pontos principais:

  1. Eventos adversos nem sempre são toxicidades da RT. Complicações urinárias como incontinência e estenose podem decorrer da prostatectomia em si.
  2. A taxa de eventos observada não é superior à esperada com fracionamento convencional, já que estudos como SWOG 8794 e RAVES relatam toxicidades tardias semelhantes (20–25%).
  3. Diferenças entre escalas de toxicidade influenciam os resultados — a inclusão de incontinência e estenose pode superestimar eventos graves.
  4. A dose usada (65 Gy/26 frações) representa uma escalada biológica em relação ao esquema convencional (66,6 Gy/37 frações) e ao NRG GU003 (62,5 Gy/25 frações), o que pode explicar maior toxicidade.
  5. O método estatístico (censura de óbitos pelo Kaplan-Meier) tende a superestimar toxicidades; modelos de risco competitivo seriam mais adequados.

Os autores concluem que os achados de Ranta et al. não devem ser interpretados como uma advertência contra o hipofracionamento, mas sim como um lembrete da necessidade de interpretação crítica dos dados e de seguimento prolongado. Evidências de alto nível, como o ensaio NRG GU003, sustentam que o hipofracionamento pós-prostatectomia é eficaz e seguro, com toxicidade comparável à do fracionamento convencional.

 

Dra. Anne Karina Kiister Leon
Hospital Santa Rita de Cássia – HSRC
Instituto Radioterapia Vitória – IRV
Núcleo especializado em Oncologia – NEON

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