O artigo analisa como a radioterapia (RT) altera o microambiente imune do câncer de mama HR+/HER2–, um subtipo considerado “imunologicamente frio”. A base do trabalho é o estudo de janela de oportunidade PRECISE, no qual pacientes receberam RT pré-operatória (7,5 Gy única ou 2 Gy × 5 dias) antes da cirurgia para avaliar mudanças celulares induzidas pela radiação.
A RT modificou significativamente o TME: mais da metade das pacientes apresentou aumento de TILs. Porém, as análises de célula única mostraram respostas heterogêneas, com aumento de células T CD4+ naïve/central-memory e redução de efetoras citotóxicas. Uma subpopulação de CD4+ manteve moléculas citotóxicas e citocinas inflamatórias, indicando recrutamento de células T mais jovens. A análise de TCR revelou novos clonótipos após a RT, sugerindo eliminação de infiltrados prévios e entrada de novas células.
No compartimento mieloide, houve expansão de TAMs imunossupressores (FCGBP+, CX3CR1+), embora com aumento simultâneo de genes de apresentação antigênica. A proporção mieloide/linfoide aumentou, padrão associado a maior supressão imune. As células tumorais EPCAM+ não apresentaram mudanças relevantes em marcadores proliferativos ou de subtipo, reforçando que a principal resposta ocorre no estroma.
Genomicamente, tumores de baixa seleção (LGS) mostraram maior resposta ao interferon e maior infiltração pós-RT, embora acompanhados de mais imunossupressão; já tumores de alta seleção (HGS) tiveram resposta menos intensa. Isso sugere que o impacto imunológico da RT depende da vulnerabilidade dos subclones.
Para o radioterapeuta, o estudo destaca que dose e fracionamento influenciam a modulação imune. Embora sem diferenças estatísticas entre esquemas, a dose única pode favorecer maior imunossupressão — dado relevante na integração RT + imunoterapia. O trabalho reforça a RT como modulador biológico, não apenas citotóxico, especialmente útil no subtipo HR+/HER2–, onde a imunoterapia isolada costuma falhar.
Apesar do tamanho amostral pequeno, o estudo abre caminhos para definir quais doses, esquemas e momentos da RT geram melhor ativação imune. Conclui que a RT remodela profundamente o microambiente tumoral, combinando estímulos pró-inflamatórios e imunossupressores, e aponta para um futuro em que física, biologia tumoral e imunologia se integram para personalizar tratamentos.
O artigo pode ser acessado no link- https://doi.org/10.1038/s41523-025-00801-3
Dr. Felipe Teles
Médico radio-oncologista do Instituto do Câncer de Curvelo
Dr. Henrique Hott
Médico radio-oncologista do Instituto do Câncer de Curvelo
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