Pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo (MIBC) submetidos à cistectomia radical permanecem sob risco significativo de recorrência locorregional, especialmente aqueles com fatores patológicos de alto risco, como estádio ≥ pT3, linfonodos positivos ou margens cirúrgicas comprometidas. Apesar do avanço da quimioterapia perioperatória e da imunoterapia adjuvante, estratégias eficazes para reduzir falhas pélvicas ainda representam uma necessidade clínica não atendida. O estudo Bladder-ART / GETUG-AFU30 avaliou a segurança da radioterapia adjuvante (ART) moderna nesse cenário.
Trata-se de um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, fase II, que incluiu pacientes com MIBC urotelial de alto risco tratados com cistectomia radical e linfadenectomia pélvica, com ou sem quimioterapia perioperatória. Os participantes foram randomizados na proporção 3:1 para receber radioterapia adjuvante pélvica ou apenas vigilância. A ART consistiu em radioterapia de intensidade modulada (IMRT), com dose total de 50,4 Gy em 28 frações, direcionada aos linfonodos pélvicos, com inclusão do leito cirúrgico apenas em casos de margem positiva.
Entre 2018 e 2023, 80 pacientes foram recrutados em 19 centros franceses. A análise de segurança incluiu 74 pacientes, sendo 52 submetidos efetivamente à ART e 22 mantidos em observação. Todos os pacientes tratados completaram o esquema radioterápico planejado, sem interrupções relacionadas à toxicidade. A taxa de eventos adversos gastrointestinais agudos grau ≥ 2 foi de 28,8% no braço da ART e 4,5% no braço observação, enquanto eventos grau ≥ 3 foram raros (3,8%) e não relacionados diretamente à radioterapia. Toxicidade urinária aguda foi incomum, com ausência de eventos grau ≥ 3 atribuíveis à ART.
Os resultados demonstram que a radioterapia adjuvante pélvica, quando realizada com técnicas modernas de IMRT e rigoroso controle dos órgãos de risco, apresenta perfil de toxicidade aguda favorável e clinicamente aceitável. Esses achados reforçam a viabilidade da ART como estratégia adjuvante em pacientes com MIBC de alto risco, enquanto se aguardam os resultados de eficácia oncológica e toxicidade tardia do estudo.
O artigo pode ser acessado no link – DOI: 10.1016/j.radonc.2025.111215
Dra. Anne Karina Kiister Leon
Hospital Santa Rita de Cássia – HSRC
Instituto Radioterapia Vitória – IRV
Núcleo especializado em Oncologia – NEON
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