O artigo “Geographical and Sociodemographic Disparities in Access to Radiotherapy in Brazil: A Nationwide Cross-Sectional Study (2017–2022)” analisa, em nível nacional, as desigualdades geográficas e sociodemográficas no acesso à radioterapia no Brasil, utilizando dados oficiais do sistema APAC/SIA/DATASUS entre 2017 e 2022.
Trata-se de um estudo transversal que avaliou 840.779 procedimentos de radioterapia realizados no período, com foco específico nos 514.237 casos em que houve necessidade de deslocamento intermunicipal para tratamento. A distância entre o município de residência e o local de tratamento foi estimada por meio da fórmula de Haversine, considerando coordenadas geográficas oficiais, com análise estatística univariada e multivariada ajustada por estado, sexo e raça.
A distância média nacional percorrida para acesso à radioterapia foi de 120,1 km, com variação significativa ao longo dos anos analisados. As disparidades regionais foram marcantes. A região Norte apresentou a maior distância média, de 442,2 km, seguida pelo Centro-Oeste com 238,9 km e Nordeste com 161,8 km, enquanto Sudeste e Sul apresentaram médias substancialmente menores, de 73,8 km e 71,3 km, respectivamente. Observou-se redução significativa da distância média na região Norte ao longo do período, com diminuição de 81,8 km entre 2017 e 2022, embora ainda permaneça como a região com maior barreira geográfica.
Diferenças também foram identificadas segundo sexo, com mulheres percorrendo, em média, 122,3 km, em comparação a 117,3 km entre homens, diferença estatisticamente significativa, embora de magnitude modesta. Em relação à raça, análises descritivas mostraram maior distância mediana para pacientes não brancos; contudo, após ajuste multivariado por estado de residência, essa associação perdeu significância estatística.
A distância variou conforme o tipo de procedimento. Procedimentos complexos, como radioterapia estereotáxica e braquiterapia, apresentaram maior média de deslocamento, 165,8 km, comparativamente a 114,1 km em tratamentos curativos convencionais e 116,3 km em tratamentos paliativos.
A análise por unidade federativa evidenciou extremos relevantes, com distâncias médias variando de 45,3 km no Rio de Janeiro a 1.471,6 km no Amapá. Esses dados reforçam a concentração histórica de infraestrutura oncológica em regiões mais desenvolvidas e a persistência de vazios assistenciais em áreas de menor desenvolvimento socioeconômico.
Os achados demonstram que, apesar de iniciativas de expansão da radioterapia no SUS, as desigualdades regionais permanecem substanciais. Em um contexto de crescimento projetado da incidência de câncer e de déficit estrutural de aceleradores lineares, o estudo fornece base empírica robusta para planejamento estratégico, priorização regional de investimentos e formulação de políticas públicas voltadas à redução de barreiras geográficas no acesso ao tratamento oncológico no Brasil.
O artigo pode ser acessado no link: https://doi.org/10.1016/j.ijrobp.2026.01.035
Maria Thereza Starling
Radio-oncologista
Hospital Madre Teresa- Belo Horizonte- MG
Comments are closed.
