
Embora a radioterapia seja tradicionalmente aplicada no tratamento das neoplasias malignas, desde os primórdios de sua utilização clínica também tem sido empregada no manejo de diversas doenças benignas. No início do século XX, seu uso era amplo em condições inflamatórias e degenerativas do sistema musculoesquelético, com relatos consistentes de alívio da dor. Com o avanço da radiobiologia e a crescente compreensão dos riscos associados à radiação ionizante, essa prática foi progressivamente abandonada.
No entanto, na última década, esse conceito vem sendo reavaliado à luz de evidências clínicas e radiobiológicas mais robustas, que demonstram a eficácia e a segurança da radioterapia em baixas doses no controle de patologias benignas que impactam significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
Esta revisão narrativa reúne evidências atuais, recomendações práticas e perspectivas futuras sobre o uso da radioterapia em baixa dose (low-dose radiotherapy – LDRT) no tratamento da osteoartrite (OA), incluindo uma análise crítica de estudos considerados negativos.
A osteoartrite é uma condição altamente prevalente, afetando cerca de 595 milhões de pessoas em todo o mundo, com tendência de crescimento em decorrência do envelhecimento populacional. Apesar de classicamente descrita como uma doença degenerativa, a OA apresenta um componente inflamatório relevante, o que fundamenta o racional biológico para o uso da LDRT.
A radioterapia em baixa dose atua por meio da redução da produção de citocinas pró-inflamatórias, como IL-1β, IL-6 e TNF-α, além de modular a migração leucocitária e a atividade de macrófagos e células endoteliais, promovendo alívio da dor mesmo sem impacto estrutural direto sobre a articulação. Os esquemas de dose mais utilizados variam entre 3 e 6 Gy, administrados em frações de 0,5 a 1,0 Gy ao longo de duas a três semanas. O volume-alvo deve englobar toda a articulação acometida, incluindo cartilagem, bursas, inserções musculares, tecidos moles adjacentes e alterações associadas, como derrame articular, espessamento capsular e osteófitos, com atenção especial à proteção de estruturas sensíveis, como os leitos ungueais.
Grandes séries retrospectivas europeias demonstram taxas de analgesia persistente em aproximadamente 60–70% dos pacientes tratados, com toxicidade mínima ou ausente. A seleção adequada dos pacientes é fundamental, sendo a LDRT indicada principalmente para indivíduos com dor crônica refratária ao tratamento conservador, em especial idosos com comprometimento de grandes articulações. Estudos prospectivos placebo-controlados de grande porte e a identificação de biomarcadores de resposta são necessários para consolidar essa estratégia terapêutica. A radioterapia em doenças benignas ressurge, assim, como uma interface promissora entre a radiobiologia e a prática clínica, com potencial crescente nos próximos anos.
O artigo pode ser acessado no link – https://doi.org/10.1016/j.semradonc.2025.07.001
Dra. Denise Ferreira Silva Alves
Diretora de Comunicação e Marketing SBRT- Gestão 2025-2027
Médica radio-oncologista do Hospital Moinhos de Ventos e Vitta/OC Centro de Radioterapia/RS
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