Uma vida na radioterapia: lições de vida de radio-oncologistas aposentados

Um estudo canadense publicado no International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics (Red Journal) explora o que médicos aposentados da radioterapia têm a ensinar sobre carreira, bem-estar e longevidade profissional. Intitulado “Lifetime in Radiation Oncology: Wisdom from Retired Physicians”, o artigo reúne reflexões de 14 radio-oncologistas que dedicaram décadas à especialidade e agora compartilham suas experiências sobre os altos e baixos de uma profissão marcada por intensa carga emocional e tecnológica.

Contexto e objetivo

A radioterapia é reconhecida como uma área exigente da medicina, combinando decisões de alto impacto com avanços tecnológicos constantes. Embora muito se fale sobre burnout e estresse, pouco se sabe sobre como os profissionais enxergam sua trajetória após o fim da carreira. O estudo, liderado por Anne Leslie e colaboradores da Universidade de Ottawa, buscou compreender o que traz realização, o que gera sofrimento e o que poderia ser melhorado ao longo da jornada profissional de um oncologista.

Métodos

Os pesquisadores realizaram entrevistas semiestruturadas com 14 médicos aposentados de centros oncológicos do Canadá, incluindo Toronto, Montreal, Ottawa e Vancouver. Os participantes, metade homens e metade mulheres, haviam trabalhado entre 31 e 48 anos, com idade média de 63 anos na aposentadoria. As entrevistas foram analisadas com base em técnicas qualitativas (NVivo 12), resultando em quatro grandes temas.

  1. Uma boa profissão

Todos os entrevistados descreveram a radioterapia como profundamente gratificante, especialmente pelo contato com os pacientes. O vínculo humano foi apontado como a principal fonte de satisfação. Outros fatores valorizados foram a colaboração interdisciplinar, o reconhecimento profissional e a contribuição para o avanço da área.

  1. Altamente estressante

Apesar da satisfação geral, a grande maioria dos entrevistados relataram altos níveis de estresse durante a carreira. As principais fontes foram conflitos com colegas e gestores, sobrecarga administrativa e mudanças tecnológicas frequentes, além da ausência de mentorias formais. Muitos destacaram que a falta de suporte aumentou o desgaste emocional.

  1. Qualidade de vida e prevenção do burnout

Embora poucos tenham relatado burnout, todos refletiram sobre o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. Os fatores protetores mais citados foram tempo de qualidade com a família, atividades físicas e criativas e redução gradual da carga clínica. Muitos reconheceram, em retrospectiva, que dedicaram tempo demais ao trabalho.

  1. Motivos para a aposentadoria

As razões mais comuns para encerrar a carreira incluíram avanço acelerado da tecnologia, conflitos administrativos e fatores pessoais como saúde e família. Vários médicos aproveitaram a aposentadoria para retomar hobbies, viajar e passar mais tempo com entes queridos.

Diferenças de gênero e formação

O estudo observou que mulheres relataram maior dificuldade em equilibrar família e trabalho, especialmente durante os anos de formação. Médicos formados fora do Canadá destacaram a importância de manter humildade e aprendizado contínuo ao longo da carreira.

Discussão e implicações

Os autores concluem que a radioterapia continua sendo uma carreira recompensadora, mas que a ausência de suporte estruturado e o ritmo tecnológico representam riscos para o bem-estar. Reforçam a necessidade de programas de mentoria, estratégias institucionais de promoção do bem-estar e ambientes colaborativos.

Conclusão

O legado dos oncologistas aposentados é claro: a profissão oferece propósito e realização duradoura, mas requer equilíbrio e apoio contínuo. Promover mentorias e políticas de bem-estar pode ajudar novas gerações a encontrar satisfação sustentável na oncologia radioterápica.


Link para o artigo: https://doi.org/10.1016/j.ijrobp.2025.07.1439

Andre Gouveia, MD
Clinical Assistant Professor, Division of Radiation Oncology, Department of Surgery, Faculty of Medicine, The University of British Columbia
Radiation Oncologist, Department of Radiation Oncology, BC Cancer – Prince George, BC
Latin America Cooperative Oncology Group (LACOG), Porto Alegre, Brazil.

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